Decidi investir no sonho, e agora? Saiba porque vale a pena ser escritor

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Descobrir-se escritor é como viver uma grande loucura. Não é como querer ser médico, professor, vendedor, administrador, etc. O ofício de escritor não é uma profissão formatada que se aprende estudando na universidade e já com emprego garantido. Mas, apesar de não haver diretrizes concretas para o trabalho, é preciso treinar muito e atender a uma série de requisitos (muitos deles bastante abstratos) para ser um escritor profissional.

E é exatamente aí que mora o conflito. Por vivermos em uma sociedade em que necessitamos trabalhar para sobreviver, fica a pergunta: vale a pena ser escritor? Investir uma vida inteira aprimorando a escrita sem nenhuma certeza de que será possível colher frutos do trabalho?

A expressão “valer a pena” tem origem grega e significa “valer o sofrimento, o sacrifício”. Escrever todos os dias para atingir seu objetivo pode significar ter que abrir mão de várias coisas. Escrever exige tempo. Por isso, talvez você tenha que escolher um emprego que pague menos, optar por produzir ou ficar com sua família e amigos, ver menos séries no Netflix ou dormir menos. A cada escolha, uma perda.

Neste artigo, quero te convidar a refletir sobre suas prioridades para que você possa decidir se quer mesmo enfrentar os desafios de ser um escritor.

O escritor é um receptáculo que busca informações e as processa de maneira única para transmiti-las em seguida.

Formação acadêmica

A primeira dúvida de todo aspirante a escritor é saber se existe alguma formação acadêmica para atuar na área. A resposta mais simples é não, não existe. Isso significa que qualquer um pode ser escritor? Sim, exatamente.

Alguns discordarão de mim, dirão que é preciso cursar letras ou jornalismo para ser um bom escritor. Eu não acredito nisso. Eu cursei letras e jornalismo e posso dizer que nenhum dos cursos sozinho me deu a base necessária para criar histórias e escrever bem.

O único pré-requisito para ser um bom escritor é escrever todos os dias. O único. Ler bastante também é muito importante, mas também não adianta ser um devorador de livros incapaz de desenvolver um texto. E, pasmem, só se aprende a escrever escrevendo.

Eu li um post muito bom sobre o assunto no blog Aprendiz de Escritor. Nele William, diz, indiretamente, que a escolha do curso superior é irrelevante para o ato da escrita em si. Ele ressalta ainda que talvez a formação superior deva ser pensada como forma de sobrevivência.

Acredito que o escritor é um eterno aprendiz. Não importa a sua profissão, seu histórico, seu senso estético, nada. Escrever é transmitir conhecimentos e, para isso, é preciso estudar sempre. O escritor é um receptáculo que busca informações e as processa de maneira única para transmiti-las em seguida.

Sendo assim, a escolha da área de estudo não é um fator decisivo na sua carreira de escritor. O importante é como você processará o conhecimento adquirido, seja ele qual for.

Retorno financeiro

Ser escritor dá dinheiro, mas é preciso ser realista: talvez não seja o suficiente para te sustentar. Por isso, volto a repetir que é preciso estar consciente do quanto você está disposto a sacrificar em prol da escrita. Existem várias formas de ganhar dinheiro escrevendo, mas é provável que, se você escolher viver da sua escrita, tenha que se envolver com todas elas.

Muitos escritores renomados tinham empregos formais ou paralelos para sobreviver. Carlos Drummond de Andrade era funcionário público. Clarice Lispector trabalhou como tradutora por muitos anos. Vinícius de Moraes, entre outras coisas, foi diplomata. Cristovão Tezza se aposentou como professor universitário. Até mesmo Luis Fernando Verissimo, um dos escritores mais lidos na atualidade, afirmou que não viveria apenas de direitos autorais.

Uma pesquisa realizada em 2014 mostrou que 54% dos autores tradicionais e 77% dos autores que se autopublicam ganham menos de R$2300 por ano. E olha que a pesquisa foi feita pelo jornal britânico The Guardian. Ou seja, não é apenas no Brasil que sobreviver como escritor é um desafio.

Diante desse cenário, é preciso ser mais que escritor. O autor precisa se autopublicar, empreender, buscar formas de encontrar leitores e viabilizar suas publicações, como, por exemplo, o financiamento coletivo. E, enquanto a escrita não rende todos os frutos necessários, também precisa se sustentar de outra forma, seja como médico ou caixa de supermercado.

A escalada do escritor é pessoal, a cada novo passo fazemos uma nova descoberta. O único padrão é que não há padrão.

Tempo dedicado

Escrever, de fato, não é rápido. Há dias em que levo meia hora só para aquecer as turbinas e começar a produzir. Se o seu objetivo é ser um bom escritor, prepare-se para dedicar um bom tempo na tarefa. O investimento diário varia de pessoa para pessoa, mas eu recomendo, no mínimo, de duas a três horas por dia trabalhando seus textos.

Há muito para ser fazer além de ler e escrever. É preciso reler e reescrever, planejar projetos, aulas (se for o caso), produzir para o seu blog e redes sociais, pesquisar e participar de concursos, etc. Dependendo do momento em que estiver na sua carreira, não te bastará apenas sentar e escrever. Todo escritor gosta de ser ouvido e, cedo ou tarde, você sentirá esse desejo também.

Por isso, trabalhe para ser bom, mas tão bom que você acredite no seu texto e sinta vontade de defendê-lo no mundo. Seja empreendedor. Dê a cara à tapa. Não se esconda atrás do que escreveu, desnude-se. Mostre-se como o escritor único que você é e tudo dará certo.

O escritor é um encantado (ou desgraçado)

Ciente de que se trata de um projeto para a vida inteira, eu te pergunto: vale a pena ser escritor? Para mim, com 22 anos de escrita e algumas publicações depois, vale a sacrifício. E quanto mais escrevo, mais certeza tenho da minha escolha.

No entanto, é preciso buscar a sua resposta. A escalada do escritor é pessoal, a cada novo passo fazemos uma nova descoberta. O único padrão é que não há padrão.

Ao sermos chamados pela escrita, não há nada mais que nos satisfaça na vida. Podemos ser bem sucedidos em todas as áreas, mas sempre faltará algo, como um buraco no peito. E só a escrita diária e com objetivos claros é capaz de preencher o vazio.

Está pronto para dar a sua resposta? Compartilhe suas experiências nos comentários para que juntos possamos nos fortalecer como escritores.

Escreva mais e melhor com a Caixa de Ideias do site Oficina de Escrita

Sobre o autor

Mylle Silva

Escritora desde que se conhece por gente, vive um conflito eterno com as histórias e ideias que insistem em habitar sua mente. Publicou o livro de contos A Sala de Banho (2014), e as HQs A Samurai (2015) e A Samurai: Yorimichi (2016).

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Mylle Silva

Escritora desde que se conhece por gente, vive um conflito eterno com as histórias e ideias que insistem em habitar sua mente. Publicou o livro de contos A Sala de Banho (2014), e as HQs A Samurai (2015) e A Samurai: Yorimichi (2016).