Um panorama do mercado brasileiro de quadrinhos independentes

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ATENÇÃO! Esse é um texto elucidativo e opinativo sobre o mercado brasileiro de quadrinhos independentes, ou seja, não pretendo fazer um tratado sobre o assunto, apenas fomentá-lo. Espero que gostem e deixem suas opiniões.


Muito se tem falado sobre o crescimento do mercado de quadrinhos independentes no Brasil, mas, como quaisquer notícias, há sempre muita perfumaria e encanto envolvidos. O aumento de eventos e publicações têm chamado a atenção de muita gente – inclusive de quem sempre quis produzir, mas nunca soube por onde começar.

No entanto, acredito que, apesar de termos produzido muito, a discussão sobre o mercado em si quase não acontece – ou fica presa a grupos fechados no Facebook. Por isso, decidi reunir em um só texto algumas impressões que tenho sobre o mercado e toda a magia de transformar as ideias em quadrinhos.

Cabe a cada artista descobrir a sua melhor forma de colocar as ideias no papel e começar a trabalhar, simples assim.

Colocando as ideias no papel

Para alguns, pode parecer bobo eu dar tanta atenção para esse assunto, mas é exatamente aqui que tudo começa: com a vontade de tirar as ideias da cachola e espalha-las pelo mundo. O processo criativo é um dos assuntos mais controversos e assustadores para os artistas iniciantes de plantão – afinal, onde estou, quem sou eu e por onde devo começar? Para mim, o primeiro passo é querer.

Mas a grande questão é que não se chega a lugar nenhum apenas com a vontade. É preciso ler, estudar, ter disciplina, desvendar qual é a sua voz, qual é a mensagem que você quer transmitir quando publica algo.

Não há dúvidas de que a obra de um artista, independente da fase em que ele está, expressa suas opinião e personalidade. Seja uma tirinha autobiográfica de três quadros ou uma série de romances de ficção, é impossível não se colocar em sua criação. Por isso, ao trabalhar uma nova publicação, é preciso estar consciente do que quer criar.

É claro que isso não é uma tarefa fácil. Eu mesma adoro escrever o que vier na mente, num fluxo de pensamento desconexo, só pra ver o que sai. O meu jeito de criar não é melhor nem pior do que estruturar previamente toda a história, background dos personagens, organizar as cenas em cartões, escolher a dedo onde colocar os plot twists, etc. Cabe a cada artista descobrir a sua melhor forma de colocar as ideias no papel e começar a trabalhar, simples assim.

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Depois de alimentar a vontade com carinho, o jeito é começar a produzir. Se você é ilustrador, comece a fazer seus quadrinhos. Se é roteirista, comece a escrever. Não importa se você não se acha tão bom quanto o artista que você segue no Instagram, o importante aqui é produzir, finalizar seus trabalhos e publicar em alguma rede social, se achar que deve. Não faça isso por ego, likes ou para ser melhor que ninguém, faça por você. É nos pequenos passos que nos tornamos artistas melhores.

No mais, lembre-se: você não está sozinho no mundo. Uma das minhas maiores alegrias no meio dos quadrinhos é saber que posso contar com a ajuda e a companhia de muitos artistas, seja para tirar dúvidas, fazer parcerias ou contar piada. São esses bons amigos que me incentivam, me ensinam e me acompanham na louca caminhada da criatividade.

Às vezes investimos dias em um trabalho para, depois de publicado, ninguém se importar. Dar a cara a tapa e mostrar ao mundo para que você veio é parte do processo de criação.

Se jogando nas Redes Sociais

Ah, internet, sua linda. No mar de informações publicadas todos os dias, como resistir à tentação de publicar mais uma coisinha? Sem dúvida o meio mais barato e imediato de mostrar o seu trabalho é através de uma rede social. É a partir desse momento que você começará a encontrar o seu público, os seus leitores, as pessoas que te acompanham e te incentivam a continuar a caminhada.

Se você produziu o bastante e já se sente confiante para mostrar seu trabalho, seja ele de ilustração, quadrinhos ou textos, é hora de começar a publicar. Transforme o seu perfil pessoal em uma espécie de vitrine dos seus trabalhos, seus pensamentos e sua essência como artista. Você não precisa mostrar como a sua vida é, mas como você a vê e a interpreta através do que faz de melhor – e, assim terá encontrado a sua voz.

Mas não se engane, porque o processo é lento e nem sempre recompensador. Às vezes investimos dias em um trabalho para, depois de publicado, ninguém se importar. E é nessas horas que precisamos deixar o ego um pouquinho de lado e pensar o quanto evoluímos no processo. Dar a cara a tapa e mostrar ao mundo para que você veio é parte do processo de criação. E acredite, mesmo que, aparentemente, não haja resposta do público, sempre tem alguém que vê.

Tudo depende de você, do que você quer fazer, da mensagem que quer transmitir, da sua criatividade e empenho.

Webcomic, para que te quero?

Existem muitas fases do fazer criativo e, um dos maiores passos que você pode dar como artista é estruturar um projeto e executá-lo do início ao fim. E a internet está aí para que você possa mostrar ao mundo os mundos que é capaz de construir. Assim que sentir que seu trabalho está mais consistente, é hora de colocar a mão na massa e pensar na sua própria webcomic!

Mas, por onde começar? Não há regras nem certo e errado aqui. Você pode publicá-la no seu perfil, numa fanpage, em algum site externo (como o tapas, por exemplo) e também no seu site.

Dizem que o melhor é tentar estar sempre presente em todas as redes sociais e ter postagens frequentes, mas, convenhamos, quem consegue fazer isso?  O importante aqui é você escolher as plataformas com as quais mais se identifica e investir nelas.

Eu, por exemplo, gosto bastante de centralizar as postagens em um site e usar as redes sociais para divulgá-las, por uma questão de organização. Faça do seu jeito e seja persistente que vai dar tudo certo.

Existem inúmeros formatos de webcomics, basta pesquisar e escolher o que você mais gostar. Alguns artistas preferem focar em um tema específico, como o Carlos Ruas em Um Sábado Qualquer. Outros, como o Fábio Coala, do Mentirinhas, exploram tanto personagens fixos quanto temas do cotidiano com personagens criados apenas para o momento.

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Há ainda o formato do Depósito do Wes, onde o Wes Samp reúne suas séries de tirinhas temáticas e as explora de acordo com o dia. Também é possível criar uma história propriamente dita, como fez a Bianca Pinheiro em Bear.

Resumindo, tudo depende de você, do que você quer fazer, da mensagem que quer transmitir, da sua criatividade e empenho.

Cabe aqui dizer que os temas são infinitos e, às vezes, quase imperceptíveis. Quais os temas que a Rebeca Prado, o Ryot, o Pedro Leite e o Will Leite exploram? O cotidiano nos rodeia, a vida acontece a todo instante – e é o olhar do artista que a reinterpreta e a torna mais interessante.

Exatamente porque cada um de nós é único a sua maneira que é impossível desvendar com exatidão quem são os leitores.

Público leitor, um mistério a ser desvendado

Leitor, uma espécie exótica e, aparentemente, em extinção por aqui. Onde vivem? Como se comportam? Do que se alimentam? Como capturá-los? Para mim, a busca de leitores é um dos maiores desafios de ser artista.

Uma parte importante da criação é mostrar o resultado para o outro, mas quem é esse outro? A resposta é tão mágica quanto perturbadora: continue produzindo, publicando e o tempo dirá. Por mais que você estruture um projeto pensando em um público alvo, nada garante que esse será, de fato, o seu público leitor.

Todos somos leitores. Todos consumimos livros, quadrinhos, filmes, séries, desenhos, timelines do Facebook, etc. E cada um de nós tem gostos, valores e personalidades diferentes. E é exatamente porque cada um de nós é único a sua maneira que é impossível desvendar com exatidão quem são os leitores.

A saída para esse impasse é simples: seja você mesmo.  Sei que estou me repetindo aqui, mas se você se propôs a ser um artista, precisa explorar a sua voz, observar a vida e reinterpretá-la do seu jeito. E a partir do momento que encontrar a sua maneira de se expressar é que os seus leitores chegarão até você.

Antes de colocar um projeto na plataforma, é preciso ter atingido uma espécie de maturidade artística – em outras palavras, a famosa noção.

Meios de viabilizar uma publicação (vulgo financiamento coletivo)

Ok, você tomou a decisão de fazer uma publicação impressa, então chegou a hora de conversar mais de perto consigo mesmo, deixar um pouco o mundo das ideias – afinal, a internet pode ser tão ou mais confusa que a mente de um artista.

É impossível falar sobre publicar HQs sem pensar no Catarse. A plataforma é um dos fatores responsáveis pelo crescimento do mercado nacional de quadrinhos independentes e tem atraído muitos artistas para o meio.

Para quem não conhece, o Catarse é uma plataforma de financiamento coletivo na qual o artista pode colocar o seu projeto e divulgá-lo para que seus leitores contribuam financeiramente e ajudem a viabilizar a publicação.

Sou uma defensora do formato e já estou em minha quarta campanha financiada. No entanto, acredito que antes de colocar um projeto na plataforma, é preciso ter atingido uma espécie de maturidade artística – em outras palavras, a famosa noção.

Minha primeira experiência no Catarse foi em 2014, com o livro de contos A Sala de Banho. Na ocasião, eu fiz uma campanha para concluir a publicação do livro, que é encadernado por mim. Como eu não era muito conhecida, tinha a noção do tamanho do passo que poderia dar e pedi R$2500 para realizar o projeto.

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No entanto, minha segunda campanha foi mais audaciosa. Para produzir a HQ A Samurai, eu precisava de R$24mil, valor que cobriria a impressão, o pagamento dos artistas, correio, recompensas e taxa da plataforma.

Apesar do projeto ter sido financiado, hoje vejo que colocar uma campanha tão grande no ar foi como dar um passo maior do que eu poderia no momento, o que me causou muito estresse e ansiedade. Por isso, ter noção do seu momento pessoal e psicológico como artista é essencial para o sucesso da sua empreitada. O famoso conhece-te a ti mesmo.

Não peça sem antes entregar algo para o seu leitor

Antes de pedir algo para o outro, mostre o que você pode entregar. Essa entrega pode acontecer de muitas formas, seja uma webcomic, uma fanpage, um e-book, um zine de distribuição gratuita, etc. Entregue para que as pessoas conheçam o seu trabalho e estejam mais propensas a pagar por ele.

E se você tiver um dinheiro sobrando, nada te impede de fazer uma publicação independente. A HQ impressa é como um objeto mágico que te eleva como artista, de dentro pra fora. Ela será sua arma de luta quando você precisar defender o seu trabalho, mostrar para que veio ao mundo.

Se cada um fizer a sua parte, estou certa de que a tendência é a de que cada vez mais eventos abram espaço para os independentes.

Feiras e Eventos de Quadrinhos, esses queridinhos

Sempre que saio sem meus livros e preciso falar deles, digo que saí desarmada. Por isso, o próximo passo na caminhada artística é estar armado e perigoso para participar de feiras e eventos.

O contato com os leitores é a essência do trabalho artístico. Não existe arte sem o receptor, no meu ponto de vista. Claro que, como artistas, temos a fruição do momento da criação (e seria ótimo se pudéssemos viver apenas dela), mas e o que fazer com a belezinha que tivemos tanto trabalho para produzir?

Pilhas de caixas com livros espalhadas pela casa, pesadas e desengonçadas, juntando pó e traça. Alguém aí já viu essa cena? Para mim, soa como um filme de terror! Uma das formas de evitar que isso aconteça é participando de feiras.

Eventos como o Festival Internacional de Quadrinhos, a Comic Con Experience e a Bienal de Quadrinhos de Curitiba têm fomentado – e muito – a produção nacional. São essas ocasiões que os artistas independentes se encontram com os leitores e promovem a troca de experiências.

Mas é preciso se esforçar um pouco. Muitas das feiras possuem um espaço limitado para as mesas e, por isso, realizam uma seleção de quem entra ou não na dança. Portanto, sem uma produção constante e uma boa presença online, fica mais difícil ser selecionado.

Existe ainda a possibilidade de participar de feiras de impressos independentes e livros, bazares e tudo mais que for possível. O importante é ter em mente que o mercado só cresce por causa do trabalho de formiguinha de cada um dos artistas, que se esforçam ano após ano para construí-lo. Se cada um fizer a sua parte, estou certa de que a tendência é a de que cada vez mais eventos abram espaço para os independentes.

Não é fácil trabalhar com publicações em nenhum lugar do mundo, que isso fique claro. Mas também não é impossível.

E os dinheiros?

Produzir, publicar e ter leitores é maravilhoso, mas todos precisamos de uma forma de sobrevivência, certo? Você pode não concordar com o que vou dizer agora, mas é no que eu acredito: fazer quadrinhos dá dinheiro.

A questão aqui é que existe uma diferença entre viver só fazendo quadrinhos e viver também fazendo quadrinhos. É nesse momento que você precisa se fazer essas duas perguntas:

  • De quanto eu preciso para viver?
  • Tenho uma fonte de renda externa?

Aqui é matemática pura (o calcanhar de Aquiles de muitos artistas, aliás). Coloque todas as suas contas no papel e enfrente os seus medos. Esclarecidas essas dúvidas, é possível definir melhor os seus objetivos com a publicação de quadrinhos.

É preciso ser realista: o preço médio de uma HQ impressa é R$20, logo, para ter um ganho de R$2mil por mês só com os livros, é preciso vender 100 exemplares a cada 30 dias. Isso que não estou contando o custo de produção do material e nem as despesas de ir a uma feira, se for o caso.

Não é fácil trabalhar com publicações em nenhum lugar do mundo, que isso fique claro. Mas também não é impossível.

Existem outras opções de fonte de renda com HQs. Uma delas é o Social Comics, uma plataforma nacional que permite que artistas publiquem suas obras online e recebam alguns centavos por página lida. No entanto, mais uma vez, é preciso ter volume de leitura para que o sistema renda bons frutos.

É possível ainda fazer um projeto de financiamento recorrente, que reúne assinantes pagantes de uma determinada quantia mensal, apoiando o artista a dar continuidade ao trabalho.

Outra ideia é distribuir o seu material em lojas especializadas e também montar a sua loja virtual. Mas todas as opções, todas mesmo, voltam na mesma questão: é preciso trabalhar para que as pessoas queiram pagar pelo seu material.

Não é magia, não cai do céu e ninguém vai te encontrar se você continuar escondido no seu canto falando o quanto é bom. Mostre para que veio que tudo vai dar certo – talvez não tão rápido quanto você gostaria, mas uma hora vai.

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Quadrinhos Independentes, para quê te quero!

Desde o momento que comecei a minha caminhada dentro do mercado de HQs nacionais, em 2013, conheci muitos artistas incríveis e uma produção que não para de crescer. Tenho muito orgulho de fazer parte dessa história e de ter encontrado a minha voz nesse meio.

Apesar do mercado ser acolhedor e estar em crescimento constante, é preciso reconhecer que os artistas enfrentam inúmeros desafios, assim como no mercado livreiro. A distribuição é desafiadora e chegar até uma editora está longe de ser a realidade da maioria dos artistas.

Autopublicar não é fácil, ser lido e reconhecido é mais complexo ainda. No entanto, o que diferencia nós quadrinistas é a vontade que temos de fazer acontecer, a nossa união e trabalho constantes para que o mercado cresça e possa agregar cada vez mais artistas.

Agora é hora de sentar e trabalhar! Vamos encher esse mundo de quadrinhos incríveis!

Sobre o autor

Mylle Silva

Escritora desde que se conhece por gente, vive um conflito eterno com as histórias e ideias que insistem em habitar sua mente. Publicou o livro de contos A Sala de Banho (2014), e as HQs A Samurai (2015) e A Samurai: Yorimichi (2016).

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Mylle Silva

Escritora desde que se conhece por gente, vive um conflito eterno com as histórias e ideias que insistem em habitar sua mente. Publicou o livro de contos A Sala de Banho (2014), e as HQs A Samurai (2015) e A Samurai: Yorimichi (2016).