Como começar uma história? Uma trama de ideias, observações e experiências

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Começar um texto pode ser um dos momentos mais difíceis da escrita. Se a folha em branco nos aterroriza mesmo quando temos a narrativa em mente, quem dirá quando não sabemos como começar uma história.

Há quem espere a vontade de escrever chegar, envolvida pelo manto sagrado da inspiração. Para muitos, escrever inspirado é a única saída. Outros esperam que a vontade chegue com o momento ideial. Marcham na vertigem das possibilidades, sonham suas trilogias épicas sem escrever uma palavra sequer – afinal, ainda não é chegada a hora.

A hora certa é agora. Comece a escrever.

Parafraseando Stephen Koch, em seu livro Oficina de Escritores, comece assim que terminar de ler esse parágrafo ou, se preferir, assim que terminar de ler esse artigo. De um jeito ou de outro, você precisa começar a escrever o quanto antes.

Escreva agora

O que ou como você escreverá não importa no agora. O foco é a escrita, o ato de encadear palavras. Talvez você esteja se perguntando: mas como vou escrever se ainda não sei qual é a minha história? Não se sinta mal por não saber. É claro que você não a conhece, nunca a escreveu.

Imaginar e escrever são duas ações bem distintas, bem como suas reações e impactos que causam nas pessoas. Enquanto as informações dançam como camaleões em sua mente, elas não são a sua história. São apenas conjecturas do desconhecido.

A única forma de conhecer a sua narrativa é escrevendo-a. O texto, ficcional ou não, só existe no mundo a partir do momento em que é escrito. Por isso, encare sua história como um mistério a ser desvendado – um fruto gerado por você e desenvolvido pelo mundo.

Como um bom mistério, não é preciso compreender a narrativa, nem os personagens, nem as ideias que surgem. Faça a escolha de colocar as palavras no papel sem exigências ou preocupações. Escolha, primeiro, escrever. E depois pense no resto.

O estado de espírito para a escrita

Temos muitas imagens mentais dos escritores. Boêmios, sociáveis, livres, inspirados, iluminados, inteligentes, gênios. Mas quantos de nós enxergamos, de fato, o escritor como um trabalhador? Quantos de nós pensamos na escrita como um trabalho?

Muitos de nós fomos doutrinados no pensamento cartesiano de que o artista não é um trabalhador de fato. Quando falamos em trabalho, pensamos logo em dinheiro, em atividades repetitivas e enfadonhas. E, bem, ser escritor está longe de ser monótono ou mesmo obrigatório.

No entanto, é preciso repensar o ofício antes de dedicar-se a ele. Ser escritor significa escrever mesmo que você não esteja com vontade. Mesmo sem estar inspirado, sem ter a musa por perto – ou como preferir chamar o seu momento.

Escrever é um compromisso que você faz consigo mesmo. É sentar e escrever todos os dias, com ou sem vontade. Continuar o trabalho, o seu trabalho, mesmo que ninguém te cobre por isso.

Como escritor, você precisa ser polivalente. Primeiro sonhe, voe alto. Esteja aberto a tudo que te sensibiliza, que faz seu coração pulsar. Depois analise, calcule, planeje, corte e reescreva. Seja o guardião bondoso e sábio das suas ideias. Não as maltrate, mas também não as subestime.

Mantenha o foco na ideia

A ideia é o primeiro contato que você terá com a narrativa. Na maioria das vezes você nem saberá que se trata de uma narrativa, o texto poderá parecer nebuloso e banal.

Escreva mesmo assim.

Não tente controlar a sua ideia, deixe que ela controle você. Deixe que seu lado criativo fale mais alto. Esqueça da escolha das palavras, da gramática, do sentido. Vá desarmado, mas com vontade. Lembre-se, você está apenas começando.

Faça do texto a extensão do seu pensamento. O simulacro da sua imaginação. O cofre das suas ideias. Deixe que as palavras te persigam até que as velocidades da escrita e do pensamento se igualem.

O primeiro sopro

Seja como um cão que fareja um pássaro, como Tom McGuane. Enxergue algo minúsculo, soprado pelo vento, como Henry James. Perceba o tipo de entusiasmo que as ideias trazem, tal qual Patricia Highsmith.

Inúmeros são os relatos de insights de grandes escritores. O que, para muitos, é inspiração, na verdade é o resultado de um olhar desenvolvido e atento ao que acontece ao nosso redor.

Quantas experiências presenciamos e vivemos todos os dias? E quantos de nós estamos dispostos a observar, atentos, ao menos algumas delas?

O escritor é um eterno observador. Tem um pouco de filósofo, de psicólogo, de biólogo, de jornalista, de sociólogo, de arqueólogo. Por isso, não se iluda achando que escrever exige um momento certo, inspirado.

Para ser escritor, você só precisa de três coisas: a curiosidade para buscar, a criatividade para imaginar e a disciplina para desenvolver. Todo o resto é treino.

Como começar uma história?

Aos que ainda se perguntam, a resposta mais simples é colocando a primeira palavra no papel, ou digitando-a no computador, no bloco de notas do celular ou até mesmo na máquina de escrever.

Em seu livro, O Prazer do Desprazer: A Tragédia do Protelador, Claudio Fernando Mahler faz reflexões diretas sobre o prazer que temos em deixar tudo para depois. Munido de argumentos provenientes de linhas de estudo diversas (o zen, a psicanálise, a psicologia analítica e a terapia gestalt), Mahler nos ajuda a refletir sobre o medo de iniciar e concluir uma trabalho no agora.

Seja por aguardar o momento certo, por preguiça ou por acreditar que somos incapazes de executar uma tarefa, nos enterramos em anseios e atividades que deixamos para depois só para nos dizermos que continuamos no meio do caminho.

Se a escrita te chama, atravesse a linha. Não espere que a conjuntura dos astros seja favorável, nem que você tenha mais tempo ou dinheiro para começar a escrever. Comece agora.

Apenas sente-se e comece.

Escreva e continue aprendendo!

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Sobre o autor

Mylle Silva

Escritora desde que se conhece por gente, vive um conflito eterno com as histórias e ideias que insistem em habitar sua mente. Publicou o livro de contos A Sala de Banho (2014), e as HQs A Samurai (2015) e A Samurai: Yorimichi (2016).

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Mylle Silva

Escritora desde que se conhece por gente, vive um conflito eterno com as histórias e ideias que insistem em habitar sua mente. Publicou o livro de contos A Sala de Banho (2014), e as HQs A Samurai (2015) e A Samurai: Yorimichi (2016).