Como fazer um texto narrativo: um guia para histórias memoráveis

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Há pelo menos uma história para ser contada dentro de cada um de nós. Não importa quem você seja, o que você faça, como você vive e quais são os seus sonhos. Estou certa de que você tem uma história para contar.

Narrar é contar histórias. É a capacidade de organizar informações e acontecimentos, criar personagens envolventes e enredos marcantes. Mas, antes de começar a criar, é preciso saber como fazer um texto narrativo. Vem comigo, porque neste artigo faremos um passeio pelas estruturas narrativas.

Não há história quando não existem agentes que executem as ações. Os personagens são o centro de tudo, que fazem o enredo se desenvolver e acontecer.

Elementos da narrativa

Para que faça sentido, toda história possui alguns elementos básicos, todos de suma importância para sua construção. Conhecer cada um deles te dará mais segurança e embasamento na hora de estruturar sua própria narrativa.

  • Espaço: As histórias sempre acontecem em algum lugar. Não importa se é na rua da sua casa ou em um mundo distópico pós-apocaliptico. É preciso escolher o espaço da narrativa para que o leitor possa se localizar e criar uma imagem mental do ambiente. É o onde da narrativa.
  • Tempo: Histórias também acontecem sempre em algum lugar. Passado, presente, futuro, real ou fictício, não importa. O tempo da narrativa deve ser mostrado de forma objetiva para que tudo faça sentido. O tempo, via de regra, passa de forma contínua. Por isso, o passar do tempo também precisa ficar claro, ainda mais quando se trata de um enredo não-linear. Trata-se do quando da narrativa.
  • Personagens: Não há história quando não existem agentes que executem as ações. Os personagens são o centro de tudo, que fazem o enredo se desenvolver e acontecer. Existem os protagonistas (personagem principal que carrega o objetivo central da história), antagonistas (personagem principal que se opõe aos objetivos do protagonistas), coadjuvantes (personagem secundário que ajuda o protagonista a atingir seu objetivo) e figurantes (que existem apenas para dar sentido a determinada cena da narrativa). São o quem da história.
  • Enredo: É o encadeamento de ações e acontecimentos dentro da narrativa. Também chamado de intriga, trama ou ação, é a história nua e crua, a sequência de cenas do início ao fim. Trata-se do o quê e como da narrativa.

A estrutura do texto narrativo

Todo texto narrativo tem introdução, desenvolvimento e conclusão. E, para que a narrativa faça sentido, é preciso estruturar, de alguma forma, o tempo, o espaço, os personagens e a narração. É através dessa combinação que temos o enredo da história.

Assim, a estrutura básica do texto narrativo é a seguinte:

  • Apresentação (introdução): É o primeiro contato do leitor com a narrativa. O tempo e o espaço da história são apresentados, bem como as personagens e suas motivações. É o ponto de partida da história, o momento em que encontramos o personagem vivendo tranquilamente sua vida, até que algo aconteça e o tire da zona de conforto. O escritor precisa responder as perguntas quem, quando e onde.
  • Conflitos (desenvolvimento): É quando a história acontece e os fatos se desenvolvem até que chegue o clímax da narrativa. O personagem é desenvolvido e conhecemos a fundo suas motivações, medos e conflitos psicológicos. O desenvolvimento deve ser construído com o objetivo de preparar o leitor para o final da história. Por isso, todos os elementos apresentados nessa parte da estrutura devem ser justificados na conclusão, para que a narrativa faça sentido e valha a pena. Aqui o escritor responde as perguntas o quê e como.
  • Clímax (ápice da história): É o momento mais forte da narrativa, em que o personagem enfrenta o grande desafio. É hora de dissipar toda a tensão criada durante o desenvolvimento, colocando o personagem diante de uma escolha irreversível, uma barreira que parece ser intransponível – mas que ele enfrentará mesmo assim.
  • Desfecho (conclusão): É o fim da história, o resultado dos acontecimentos da narrativa na vida do personagem. O desfecho pode ser positivo, quando o personagem vence o desafio, ou negativo, com um personagem derrotado. O importante é mostrar que o personagem (e, muitas vezes, o universo da história) sofreram mudanças no decorrer da narrativa. O escritor pode responder o porquê ou deixar o final em aberto (meus favoritos!)

Para que ele seja convincente, o protagonista da sua história precisa cometer erros, entrar em contradição e estar disposto a evoluir, caso seja necessário.

Tipos de narrador

O narrador é de suma importância quando pensamos em como fazer um texto narrativo, já que é ele quem conta a história ao leitor. A forma como a voz dos personagens é introduzida na voz do narrador é chamada de discurso.

Existem três tipos de foco narrativo, que podem ou não se misturar dentro de uma mesma narrativa. São eles:

  • Narrador personagem: Quando o narrador é também um personagem da história que participa da ação e conta os acontecimentos do seu ponto de vista. O leitor tem contato tanto com o olhar do narrador quanto com seu lado psicológico, mas não é capaz de saber o que os demais personagens pensam ou sentem. A narrativa é escrita em 1ª pessoa. Também é chamado de narrador participante ou narrador presente.
  • Narrador observador: Quando o narrador apenas conta o que está acontecendo na história, sem fazer parte da ação ou ter contato com o psicológico de quaisquer personagens. É uma voz que observa de longe e narra de forma imparcial. É escrito sempre em 3ª pessoa e também pode ser chamado de narrador não participante ou narrador ausente.
  • Narrador onisciente: Quando o narrador sabe todos os acontecimentos narrativa e conhece os sentimentos e motivações dos personagens. Ele está presente em todos os momentos da história e, muitas vezes, emite uma opinião sobre os fatos que narra. É escrita em 3ª pessoa e também pode ser chamado de narrador onipresente.

Tipos de discurso

A maneira como o narrador introduz a voz dos personagens é chama de discurso. É através dele que conhecemos suas opiniões, ideias e sentimentos. Existem três tipos de discurso, que podem se misturar dentro de uma mesma história.

A combinação dos tipos de discurso é que dará o tom da narrativa. Dependendo do uso dos discursos, a narrativa pode ser mais ou menos objetiva, mais ou menos dinâmica, mais ou menos natural, mais ou menos interessante, etc.

O três tipos de discurso são:

  • Discurso direto: Quando a transição para a fala dos personagens é direta, bem definida, separada do texto do narrador. Em quase todos os casos é marcada pela quebra de linha e uso do travessão ou aspas.
  • Discurso indireto: Quando o narrador interfere na fala do personagem, fazendo com que ela se confunda dentro da narrativa. Além de não ser demarcada dentro do texto, é escrita em 3ª pessoa, como se o narrador dissesse o que o personagem disse.
  • Discurso indireto livre: Quando a fala do personagem e o discurso do narrador se confundem, como se o texto de um estivesse inserido no outro. As falas podem ser demarcadas ou não, mesclando, assim, o discurso direto com o indireto.

O tema é o que acontece para que o protagonista, de forma voluntária ou não, saia do ponto A e vá até o ponto B. É o que motiva, modifica e justifica a jornada do protagonista dentro da narrativa.

Como fazer um texto narrativo

Agora que você já conhece os elementos, a estrutura, a narrativa e o discurso dentro de um texto narrativo, chegou a hora de começar a construir a sua narrativa! E para que a história seja bem contada, antes de começar a escrever é preciso pensar em alguns elementos e planejar os acontecimentos chave do enredo.

Construindo o seu personagem

Tema e personagem andam de mãos dadas, mas, para começar a dar um corpo para aquela sua primeira ideia de história, é preciso saber sobre quem você quer falar. Por isso, a primeira pergunta que você deve ser fazer é: quem é o protagonista da minha história?

A maneira mais fácil de começar a definir o protagonista da sua trama é fazer uma lista com características físicas e mentais dele. Conceba-o como um ser pensante e ativo, possuidor de personalidade e valores com as quais o seu leitor irá se identificar.

Seu personagem pode ser um ser humano, um animal, uma planta, um alienígena, uma máquina ou tudo isso junto. O importante é que, antes de começar a escrever, você reúna o máximo de informações sobre ele.

Quanto mais respostas você tiver sobre seu personagem, mais envolvido o leitor se sentirá. Vale lembrar que, assim como nós, o personagem principal não pode ser estático e imutável.

Para que ele seja convincente, o protagonista da sua história precisa cometer erros, entrar em contradição e estar disposto a evoluir, caso seja necessário. Lembre-se que contar uma história é partir do ponto A e chegar ao ponto B contando as mudanças que um conflito gerou na vida de todos os envolvidos na narrativa.

Imagine que você está preenchendo as informações dele em uma rede social e faça perguntas como:

  • Qual é o seu nome?
  • Qual é a sua idade?
  • Onde ele(a) mora?
  • Qual é a sua aparência física?
  • Como ele(a) se vê fisicamente dentro do mundo?
  • Quais são seus sonhos e objetivos?
  • Quais são seus traumas?
  • Quem são seus melhores amigos, companheiros de batalha, etc?
  • Qual é a sua relação com seus pais?
  • Qual é o seu nível de escolaridade?
  • Em qual área trabalha? O que gosta de estudar?
  • Quais são seus hobbies?
  • Como ele vivia antes de se envolver nos acontecimentos da história?
  • O que o faz entrar em contradição?
  • Quais são as pessoas mais importantes na vida dele?
  • Quais são suas grandes vitórias?

À medida que você for desenvolvendo sua ideia, poderá linkar o personagem com o tema da história. Não há limite para a quantidade de perguntas que você pode criar, por isso solte a imaginação e não pare de respondê-las até sentir que seu personagem está bem estruturado e pronto para ingressar na trama.

O tema é simples e humano, por isso, ao pensar nele, busque a essência da sua ideia e deixe-a bem clara tanto para você quanto para o leitor.

Definindo o seu tema

Assim como o personagem, definir e estruturar o tema da sua história é essencial antes de começar a desenvolvê-la. Como vimos antes, toda história acontece em um espaço e um tempo pré-definidos, que precisam estar bem claros tanto para o escritor quanto para o leitor.

O tema é o que acontece para que o protagonista, de forma voluntária ou não, saia do ponto A e vá até o ponto B. É o que motiva, modifica e justifica a jornada do protagonista dentro da narrativa.

Pense no tema como um carvão que precisa ser lapidado até virar um diamante. Trate-o como a essência de tudo e simplifique-o ao máximo. Agora é hora de planejar a sua história, por isso, não tente contá-la inteira de uma vez. O tema é simples e humano, por isso, ao pensar nele, busque a essência da sua ideia e deixe-a bem clara tanto para você quanto para o leitor.

Você pode pensar em algumas perguntas, tais como:

  • Qual é o elemento central do objetivo do meu personagem? (amor, ódio, vingança, esperança, etc)
  • Qual mensagem eu quero transmitir ao leitor com a minha história?
  • Como a visão ideológica (política, religiosa, social, etc) do meu personagem se encontra com a mensagem da história?
  • Qual é o conflito que meu personagem enfrentará? (pessoal, interpessoal, social, etc)

A partir do momento que você definir o tema central da sua história, desenvolvê-lo será bem mais fácil. Munido com as informações reunidas sobre o tema e o protagonista, o próximo passo é planejar o que acontecerá em sua narrativa.

Planejando a sua história

Existem inúmeras maneiras de se planejar uma história e cada escritor possui a sua. Por isso, a melhor forma de descobrir qual é a sua preferida, é preciso testar alguns métodos.

A seguir, listarei algumas técnicas de planejamento de narrativas, que podem ou não ser usadas em conjunto. O importante aqui é conhecê-las e saber que não existe nenhuma regra fechada para escrever. As técnicas existem para facilitar e organizar o trabalho do escritor, mas fica ao seu critério usá-las ou não.

Sistema LOCK

James Scott Bell, autor do livro Write Great Fiction – Plot & Structure, propõe um método simples para começar a estruturar uma história. A ideia é listar os quatro pontos principais da sua história antes de começar a desenvolvê-la. São eles:

  • Lead (personagem principal) – quem é o protagonista da sua história?
  • Objective (objetivo) – qual é o objetivo do seu protagonista?
  • Conflict (conflito) – que conflito o protagonista enfrentará dentro da história?
  • Knock-out (clímax e desfecho) – qual é o ponto alto da narrativa que levará ao fim?

O interessante é que, ao organizar as informações dessa forma, é possível refletir sobre a história sem ficar tão preso à estrutura. Coloca-se no papel o mais essencial da trama, os elementos básicos que darão vida à narrativa, mas ainda sem pensar em curva dramática, foco narrativo, discurso, nada disso. Apenas uma simples organização de ideias.

Ponto de Virada é um acontecimento irreversível que obriga o personagem a seguir em frente para atingir seu objetivo.

Curva dramática e estrutura em três atos

Se você é fã de filmes e séries americanas, com certeza está familiarizado com a estrutura dos três atos da narrativa. O uso dessa estrutura é muito comum e funcional, porque cria uma curva dramática que prende o espectador dentro da trama.

Toda história tem uma sucessão de acontecimentos, alguns benéficos e outros prejudiciais ao protagonista. A variação da tensão dentro da narrativa é chamada de Curva Dramática.

Para que a curva dramática funcione, o protagonista precisa ser desafiado a sair da sua zona de conforto. Os momentos quem desestabilizam a vida do protagonista são chamados de Pontos de Virada. O Ponto de Virada é um acontecimento irreversível que obriga o personagem a seguir em frente para atingir seu objetivo.

Existem muitas variações de curva dramática, usadas de acordo com a história que o autor quer desenvolver. A mais simples, é a com dois pontos de virada que convergem para clímax da trama. Dessa forma, a estrutura narrativa mais comum é dividida em três atos, como descrito a seguir:

  • Ato I – É a introdução da história, quando o personagem vive sua vida comum e sem problemas, ou seja, está em sua zona de conforto. O escritor mostra o tempo, o espaço e a personalidade do protagonista. Feito isso, é hora de tirar o personagem do seu canto e lançá-lo na aventura. Algo irreversível acontece (primeiro ponto de virada), obrigando o personagem a fazer uma escolha, mudando o curso da história. Quase sempre corresponde aos primeiros 20% da narrativa.
  • Ato II – É o desenvolvimento da narrativa, o maior ato de todos. Nele, o protagonista enfrentará grandes desafios e se desenvolverá. Aqui o escritor pode deixar a curva dramática cheia de altos e baixos para mostrar com clareza a evolução do personagem. No entanto, quando tudo parecer bem e o nosso herói parecer bem confortável em sua nova vida, é hora de colocar um novo acontecimento irreversível (segundo ponto de virada) e encaminhar a narrativa para o momento mais esperado: o clímax.
  • Ato III – É o ponto alto da narrativa, quando temos o clímax e desfecho. Depois de tirar o protagonista da sua zona de conforto e treiná-lo diante dos desafios de um mundo pouco familiar para ele, é hora de fazê-lo enfrentar um grande desafio. Ele será testado, levado a extremos, quase morrerá – mas sobreviverá, de alguma forma. Resolvido o conflito, é hora de terminar a história e fazer o seu protagonista voltar ao local de origem como um sabedor dos dois mundos.

Antes de desenvolver de fato os atos da sua história, coloque no papel o que acontecerá em cada um deles e quais cenas marcarão os seus pontos de virada. Dessa forma, ficará mais fácil prever quais caminhos você quer tomar dentro da sua narrativa e tornará o ato da escrita bem mais prazeroso.

Cartões com cenas

Essa técnica é para os mais minuciosos e que gostam de planejar a narrativa nos mínimos detalhes. Ela consiste em escrever um resumo de todas (sim, eu disse todas) as cenas da sua história em cartões antes de começar a desenvolver a história.

As informações contidas em cada cartão variam de autor para autor, mas é interessante focar sempre em quatro pontos principais:

  • Onde a cena acontecerá?
  • Em que horário acontecerá?
  • Quem estará presente na cena?
  • O que acontecerá na cena?

Ao organizar as cenas da sua narrativa dessa forma, é possível visualizar o desenrolar da trama com clareza sem precisar escrever o texto inteiro.

Com os cartões em mãos, é hora de verificar se as cenas estão nos lugares certos da história. Troque-as de lugar e não tenha medo de tirar algumas das cenas se você achar que ela não é importante para a narrativa. Lembre-se que nada, nada mesmo, pode acontecer por acaso dentro da sua história.

Não tenha medo nem vergonha de enfrentar os desafios da escrita. Escrever é uma construção que exige dedicação e perseverança.

É hora de escrever!

Agora que você já sabe como fazer um texto narrativo, conhece os mecanismos, estruturas e técnicas, chegou o momento tão esperado: escrever! Ao conhecer seu protagonista, saber com qual tema quer trabalhar e a melhor forma de desenvolvê-lo, você sentirá a segurança de produzir uma história sólida e de qualidade.

Escrever para ser lido

Quanto mais clara a sua história estiver para você, mais clara ela será para o seu leitor. Não tenha medo nem vergonha de enfrentar os desafios da escrita. Escrever é uma construção que exige dedicação e perseverança.

Não será sua primeira nem sua segunda narrativa que te trará frutos. Pense no seu plano de escrita a longo prazo e procure escrever para ser lido. Escreva de tudo, sempre que quiser, mas se o seu objetivo é ser reconhecido como escritor, não se esqueça de escrever para o seu leitor.

Continue estudando!

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Sobre o autor

Mylle Silva

Escritora desde que se conhece por gente, vive um conflito eterno com as histórias e ideias que insistem em habitar sua mente. Publicou o livro de contos A Sala de Banho (2014), e as HQs A Samurai (2015) e A Samurai: Yorimichi (2016).

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Mylle Silva

Escritora desde que se conhece por gente, vive um conflito eterno com as histórias e ideias que insistem em habitar sua mente. Publicou o livro de contos A Sala de Banho (2014), e as HQs A Samurai (2015) e A Samurai: Yorimichi (2016).